À PROCURA DA PALAVRA — “Não pescas nada…!”

DOMINGO III DA PÁSCOA Ano C
"«Lançai a rede para a direita do barco e encontrareis»." Jo 21, 6

Não é muito comum a expressão, mas, de vez em quando, lá a ouvimos ou dizemos a alguém que não está a perceber nada de um assunto. Ouvi-a estes dias quando pedi a um amigo para me explicar o imbróglio dos “Papéis do Panamá”. O que afinal “pesquei” foram duas constatações: “o dinheiro é capaz de perverter todos os valores”, e “mais cedo ou mais tarde tudo se vem, a saber”! Qual “cento e cinquenta e três grandes peixes”, personagens conhecidos e incógnitos, muitos com responsabilidades sociais, foram apanhados numa rede de enriquecimentos dúbios, quantas vezes à custa da miséria de muitos! Os que estavam a “pescar” foram “pescados”!


Do mar e de peixes eram sabedores os primeiros discípulos. E espanta-nos que, após a ressurreição de Jesus, os vejamos de novo numa barca, a lançar redes e a recolhê-las vazias. Não havia tanto a fazer para levar a toda à criatura a Boa Nova? Mas esta pesca infrutífera é também uma lição: sem Jesus “não pescamos nada”! Podemos repetir palavras bonitas, organizarmo-nos em estruturas eficazes, controlar poderes e projetos, fazer celebrações sumptuosas, mas, sem Ele, morremos de fome, pois as redes não trarão “os peixes” que enchem a vida de sentido e de graça. A pesca durante a noite, como creio que os pescadores fazem, é símbolo de um esforço humano a que falta a luz que é Cristo. É quase como a “pesca” de quem se esconde em “paraísos fiscais” para ganhar muito, às vezes à custa de alguns “infernos” promovidos em lugares distantes. A pesca acontece ao romper do dia, quando a esperança renasce na palavra do desconhecido, que convida a lançar as redes de novo.

É à luz e à voz de Jesus Ressuscitado que cada dia se torna possibilidade nova de uma abundância de vida e de sentido. É preciso passar da noite em que os pensamentos e projetos não se revelam na sua totalidade para o dia que melhor ilumina tudo. Quantas vezes “não pescamos nada” da vida, e tudo nos parece tão vazio e desesperado! Há dias, ouvindo uma expressão de desespero, “um dia ainda…!”, lembrei-me daquele amigo que costuma responder assim a esses ditos de “horas más”: “Antes de fazeres alguma coisa radical, põe-te a caminho e vai dar a volta ao mundo!” Não me quis explicar por que, mas até Jesus chamou os discípulos para o seguirem e depois os enviou ao mundo inteiro.

Na beira do mar, Jesus chama os apóstolos para comerem o pão e o peixe. Se a pesca abundante significa vida plena para todos, é na comunhão de Cristo e com Cristo, que ela pode ser distribuída a todos. Agora já “pescam alguma coisa” dessa missão em favor da humanidade, da dignidade de todos serem amados por Deus, e ser necessário promover o seu desenvolvimento. Onde persistirem as noites da exploração e da indiferença aos mais pobres e esquecidos, onde o lucro escandaloso de alguns contrastar com a miséria de muitos, onde a paz não se construir pelo desenvolvimento de cada pessoa e cada família, a voz e a luz de Cristo são necessárias para a pesca que traz vida para todos. Assim também nas igrejas: só a pesca com Jesus, escutando-o e agindo como Ele, pode trazer vida abundante e feliz! Será que já “pescamos” um pouco melhor o que Jesus quer?


P. Vítor Gonçalves

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